quarta-feira, 30 de março de 2011

Apresentação da Obra ( Morte e Vida Severina) de João Cabral de Melo Neto






















A obra Morte e Vida Severina se caracteriza por uma narrativa dramática e pelo uso de uma linguagem lírica. Os personagens são apresentados de forma direta, por diálogos e monólogos. A temática está centrada na trajetória de Severino, um retirante nordestino, que abandona o sertão rumo ao litoral em busca de sobrevivência. Severino é um tipo emblemático que representa o sertanejo e a saga de sua gente. Em sua caminhada para a cidade, ele encontra os irmãos das almas, que carregam um cadáver, Severino toma o lugar deles, e a partir daí, ele vai descobrindo que a morte é uma fonte de trabalho e renda na região. Profissões como, enfermeiros, coveiros, farmacêuticos e benzedeiras, são beneficiadas pela indústria da morte. Ao longo de sua trajetória, ele assiste a enterros e cortejos fúnebres, convivendo sempre com situações ligadas à morte. Chegando no Recife, o sertanejo ouve a conversa de dois coveiros que falam sobre os retirantes que chegam para morrer na capital. Chocado e ciente de sua miserabilidade, Severino resolve se suicidar, antes, porém, conversa com José, mestre carpina, a respeito da profundidade do rio Capibaribe. Exatamente nesse momento, o mestre carpina recebe a notícia do nascimento de um menino, fato que trás muita alegria a todos. Severino assiste ao contentamento ante a notícia do recém-nascido, a quem os vizinhos, amigos e parentes, vão levar presentes e adorar como a Cristo. O poema termina com o mestre carpina, respondendo a Severino que a vida do nordestino, mesmo frágil, é uma prova da resistência desse povo e de todos os outros severinos do Nordeste do Brasil que lutam pela sobrevivência.

PARTE 2

           O poema é iniciado com a apresentação de Severino, o retirante: “Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Paraíba. O autor deixa claro que não fala de um só Severino, mas de um grande grupo: os retirantes nordestinos, que têm todos a mesma sina, a morte e a vida severina: “Somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida”. 
            No decorrer do poema Severino se põe a contar as durezas enfrentadas por esta gente: as jornadas para fugir da seca caatinga, onde não nasce nem planta brava, em busca de terra que lhe dê o que comer. Após a apresentação, Severino encontra dois homens carregando um defunto. Eles lhe contam que o defunto havia sido um retirante que conseguira um pedaço de terra e foi assassinado por alguém que a cobiçava. Alguém a quem não deram nome, indicando que, como este, existem muitos “alguéns” que matam por terras. Severino se oferece para ajudar a carregar o defunto, e seguem. 
            Severino diz que tem medo de se perder pois o rio Capibaribe, o qual ele seguia, é “tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina”, com o verão um pedaço do rio secou. Encontram uma casa onde cantavam em homenagem a um defunto. 
            Cansado da viagem, na qual só encontrava a morte, Severino decide procurar trabalho ali mesmo onde parou. Vai até uma mulher que está na janela, e que não parece ser pobre, para pedir emprego. Esta lhe diz que as habilidades de retirante de nada servem ali: plantar, colher, lavrar, tratar de gado, cuidar de moenda, nada disso se pode fazer numa terra seca que não dá nada. Ela pergunta se Severino sabe rezar e encomendar defuntos porque, para isso há muita freguesia: “Só os roçados da morte compensam aqui cultivar”. 
            Severino volta a sua jornada e, chegando a Zona da Mata se encanta e pensa novamente em parar. Mas dá de cara com outro enterro e resolve apressar logo o passo, chegando a Recife. Lá ele pára e descansa, ouvindo a conversa de dois coveiros. Um reclamando que enterrar ricos é muito demorado, com muita pompa e etc; o outro reclama de enterrar pobres, porque a quantidade de defuntos é muito maior. E começam a discorrer sobre os bairros e seus diferentes defuntos: o dos lojistas e profissionais liberais, o dos ferroviários, etc, ao que um deles diz: “jamais entenderei essa gente do Sertão que desce para o litoral, sem razão, fica vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha; pois bem: quando sua morte chega, temos de enterrá-los em terra seca. Na verdade seria muito mais rápido (...) que os sacudissem de qualquer ponte.” 
            Severino pensa consigo mesmo que ao chegar a Recife não esperava riqueza, mas um pouquinho mais de água, farinha e algodão para sua roupa. Mal sabia que nesta viagem do Sertão a Recife estava seguindo seu próprio enterro. Nesse instante se aproxima um homem: Seu José, mestre carpina, e Severino lhe pergunta sobre a profundidade daquele trecho do rio Capibaribe, e explica que para o corpo de um homem não é preciso muita água. 
            Exausto e infeliz com a sua caminhada, Severino questiona Seu José a respeito da vida que levam, esta vida retalhada, que precisa ser comprada duramente a cada dia. Seu José responde que mesmo comprada a prazo, ainda assim é vida. Nesse momento surge uma mulher anunciando o nascimento do filho de Seu José, e começam a chegar pessoas trazendo presentes ao recém-nascido. 
            O poema é finalizado com uma resposta de José às lamentações de Severino. Ele fala que é difícil defender a vida apenas com palavras, mas a própria vida responde com sua presença (o nascimento da criança). A melhor resposta é a explosão da vida, ainda que seja uma vida severina.       

PARTE 3



Severino é um retirante: ele é como muitos outros e que está partindo para o litoral, fugindo da seca, da morte. A vida na Capital parece mais atraente, mais vida, menos severina. Em suas andanças, entretanto, Severino se depara a todo momento não com a vida, mas sim com o que já conhece como coisa vulgar: a morte e o desespero que a cerca .
Em seu primeiro encontro com ela, o retirante topa com dois homens carregando um defunto até sua última morada. Durante uma conversa, descobre que o pobre coitado havia sido assassinado e que o motivo fora ter querido expandir um pouco suas terras, que praticamente não eram produtíveis .
O retirante segue sua viagem e percebe que na região onde se encontra, nem o rio Capibaribe - seco no verão - consegue cumprir o seu papel. Severino sente medo de não conseguir chegar ao seu destino. Escuta, então, uma cantoria e, aproximando-se, vê que está sendo encomendado um defunto. Pela primeira vez, Severino pensa em interromper sua descida para o litoral e procura trabalho naquela vila. Ao dirigir-se a uma mulher, descobre que tudo que sabe fazer não serve ali, e o único trabalho existente e lucrativo é o que ajuda na morte: médico, rezadeira, farmacêutico, coveiro . E o lucro é certo nessas profissões, pois não faltam fregueses, uma vez que ali a morte também é coisa vulgar.
Se não há como trabalhar, mais uma vez Severino retoma seu rumo e chega à Zona da Mata, onde novamente pensa em interromper sua viagem e se fixar naquela terra branda e macia, tão diferente da solo do Sertão. Mais do que isso: começou a acreditar que não via ninguém porque a vida ali deveria ser tão boa, que todos estavam de folga e que ninguém deveria conhecer a morte em vida, a vida severina _ . Ilusão de quem está à procura do paraíso: logo Severino assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério. Severino se dá conta que ali as privações são as mesmas que ele conhece bem e que também a única parte que pode ser sua daquela terra é uma cova para sepultura, nada mais.
O retirante resolve então apressar o passo para chegar logo ao Recife. Severino senta-se para descansar ao pé de um muro alto e ouve uma conversa. É mais uma vez a morte rondando, são dois coveiros que lhe dão a má notícia: toda a gente que vai do Sertão até ali procurando morrer de velhice, vai na verdade é seguindo o próprio enterro, pois logo que chegam, são os cemitérios que os esperam.
Severino nunca quis muito da vida, mas está desiludido: esperava encontrar trabalho, trabalho duro mas agora - desespero! - já se imagina um defunto como aqueles que os coveiros descreviam, faltava apenas cumprir seu destino de retirante.
Nesse momento, aproxima-se de Severino seu José, mestre carpina, morador de um dos mocambos que havia entre o cais e a água do rio. O retirante, desesperançado, revela ao mestre carpina sua intenção de suicídio, de se jogar naquele rio e ter uma mortalha macia e líquida. José tenta convencer Severino que ainda vale a pena lutar pela vida, mesmo que seja vida severina . Mas Severino não vê mais diferença entre vida e morte e lança a pergunta: que diferença faria se em vez de continuar tomasse melhor saída:a de saltar, numa noite, fora da ponte e da vida?
Da porta de onde havia saído o mestre carpina, surge uma mulher, que grita uma notícia. Um filho nascera, o filho de seu José ! Chegam vizinhos, amigos, pessoas trazendo presentes ao recém-nascido . Vêm também duas ciganas, que fazem a previsão do futuro do menino: ele crescerá aprendendo com os bichos e no futuro trabalhará numa fábrica, lambuzado de graxa e, quem sabe, poderá morar num lugar um pouco melhor.
Severino assiste ao movimento, ao clima de euforia com a vinda do menino. O carpina se aproxima novamente do retirante e reata a conversa que estavam levando. Diz que não sabe a resposta da pergunta feita, mas, melhor que palavras, o nascimento da criança podia ser uma resposta: a vida vale a pena ser defendida.


Créditos: Jonas Dantas


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